Cidade de Deus é aqui

Cidade de Deus - Buscapé - Luiz Otávio
O Vidigal sempre foi querido pelos artistas. A lista dos que moraram e frequentaram o morro desde os anos 1970 é quase tão ampla quanto a história da cultura carioca da época. A novidade, porém, veio com a estreia do filme Cidade de Deus em 2002, que levou jovens atores da comunidade ao estrelato.  Foi quando o morro passou não só a ser endereço de famosos, mas a ter seus próprios representantes. Ali, a expressão “não nasce, estreia”, sentiu-se em casa.

Distantes na localização, as comunidades do Vidigal e Cidade de Deus uniram-se em uma obra que rodou o mundo. Mas, afinal, como isso aconteceu? E o que veio depois?
O cineasta Luciano Vidigal, produtor de elenco do filme original e diretor do documentário “Cidade de Deus – 10 anos depois”, com Cavi Borges, resume em uma frase: “O filme Cidade de Deus começou no Vidigal”.

Em busca do elenco perfeito
Começou quando o diretor, Fernando Meireles, firmou parceria com Kátia Lund, que já tinha um longo histórico de proximidade com favelas cariocas e uma vasta experiência com a realidade e a linguagem dos filmes realizados nestes locais. Tempos antes havia dirigido o premiadíssimo “Notícias de uma Guerra Particular”, ao lado de João Moreira Salles. Com conhecimento e facilidade de acesso a favelas, ela teria a missão de ajudar a viabilizar a escolha dos atores, que deveriam ser oriundos de comunidades e desconhecidos do grande público.
Procuraram Guti Fraga, fundador do Grupo Teatral Nós do Morro, já um bem-sucedido projeto de formação artística no Vidigal. Proposta aceita, ficou a cargo dos jovens Luciana Bezerra e Luciano Vidigal a tarefa de localizar outras instituições com trabalho semelhante, onde pudessem selecionar os atores.

[slideshow]

Sete em cada dez eram do Vidigal
Foram 2000 inscritos, e 400 selecionados para a oficina, batizadas de Nós do Cinema e realizada na Fundição Progresso, na Lapa. Destes, 200 participaram do filme e calcula-se que 70% eram do Vidigal.
Alguns dos cerca de 140 selecionados no Vidigal tiveram papéis de destaque, como os irmãos Jonathan e Phellipe Haagensen (Cabeleira e Bené), Roberta Rodrigues (Berenice), Luiz Otávio Fernandes (Buscapé criança) e Thiago Martins (Lampião, líder do bando Caixa Baixa).
O filme foi de aprendizado, e muitos consideram um marco em suas carreiras, não apenas pela repercussão posterior, mas pelo aprendizado no set de filmagem. Roberta Rodrigues, por exemplo, pediu para continuar como assistente após o término de sua parte nas filmagens.

Cidade de Deus - Jonathan Haagensen e Roberta Rodrigues

Jonathan Haagensen e Roberta Rodrigues como Cabeleira e Berenice

Agora, segura a onda…
Quando o filme estreou, foi um sucesso estrondoso. Jornalistas passaram a buscar, na fonte, a origem de tantos talentos. Provavelmente não se falava o nome do Vidigal com tanta ênfase na mídia desde a visita do Papa, em 1980.
No auge da febre “Cidade de Deus” pelo mundo, Jonathan Haagensen chegou a ser considerado o “Lenny Kravitz brasileiro” e posar em Paris para Mario Testino, em campanha para a grife Dolcce e Gabbana.
Com medo do resultado que tanta exposição teria na vida dos jovens, Guti Fraga deu a eles uma espécie de antídoto “pé no chão”, como contou em entrevista: “Lembro que levei os dois para a minha casa e falei: ‘Roberta, limpa o galinheiro, tira todo o cocô da galinha’ e ‘Jonathan, capina aquela área’’”.

Cidade de Deus - Lampião - Thiago Martins

Thiago Martins como Lampião

O filme proporcionaria ainda alguns momentos “surreais”, como descreve Luciano Vidigal. Um deles foi durante a cerimônia do Oscar, quando os atores e seus parentes foram convidados de honra do Sheraton Hotel, localizado próximo ao morro. “Isso nunca tinha acontecido, e nunca mais aconteceu”, conta Luciano.
Outro momento, este não tão feliz, foi em 2004, quando o filme seria exibido pela primeira vez no Vidigal. Dispostas no então “campinho” (a Vila Olímpica ainda não estava pronta), 2.200 cadeiras esperaram, sem sucesso, pelo público: na mesma noite houve um conflito armado e um corpo foi jogado na rua. Por ironia do destino, era o do traficante Toquinho, considerado “o bandido gente boa”, ou “o Bené do morro”.

Depois de Deus, os homens

Jonathan Haagensen grava como Madrugadão de Cidade dos Homens, no Vidigal

Após mostrar a favela como cenário, Fernando Meireles deu continuidade ao projeto, focando a vida de seus habitantes em “Cidade dos Homens”, seriado exibido na Rede Globo entre 2002 e 2005, que teve direção compartilhada e também ganhou versão em filme. Foi a porta de entrada dos atores na Rede Globo e, a seguir, em outras emissoras. Foi, também, o início de uma fase de auto-estima do morro, que vê seus filhos brilharem na telinha.
A fama não afastou os atores do bairro natal. Todos, sem exceção, continuam a morar lá, agora em casas próprias e com o conforto merecido. Mesmo em papéis de destaque na novela com maior audiência na televisão, fazem compras no supermercado local sem serem incomodados.

10 anos depois
Cidade de Deus - 10 anos depoisEm 2012, quando o filme comemora uma década de seu lançamento, a curiosidade torna-se quase inevitável: o que aconteceu aos atores depois do sucesso? O documentário “Cidade de Deus + 10” resgatará a história de 30 deles, não necessariamente do Vidigal.
Os jovens do Vidigal levaram destinos distintos. Enquanto uma parte continuou a atuar, alcançando grande visibilidade, há os que não puderam continuar na profissão e hoje trabalham em profissões não tão glamourosas.
Entre os que alcançaram a fama, diversos podem ser vistos em filmes e novelas, mas também seguiram carreira musical. Sete deles (Sabrina Rosa, Cintia Rosa, Jonathan Haagensen, Roberta Rodrigues, Luiz Otávio Fernandes, Marcello Melo Jr. e Micael Borges) formam a banda Melanina Carioca. Phellipe Haagensen segue em carreira solo e Thiago Martins está à frente do Trio Ternura, cujo nome faz referência ao trio da primeira fase do filme.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ae5aM4VYXik]