Mirante do Arvrão: hotel de charme no alto do morro muda padrão de hospedagem em favelas


Varanda do quarto privativo do Hotel Mirante do Arvrão, no Vidigal

A obra se arrastou por anos, tempo em que muitos – incluindo este site – se questionaram: por que alguém faria um hotel de luxo (ou charme, como esclareceu posteriormente o arquiteto do projeto, Hélio Pellegrino) no topo de uma favela, mesmo que pacificada?

Agora, em dezembro de 2013, o hotel Mirante do Arvrão abre suas portas. A inauguração oficial, incluindo aí o início das atividades da filial do Boteco Belmonte, a primeira em uma favela, está prevista para esta semana, ainda sem data confirmada.

Fachada do Hotel Mirante do Arvrão, no Vidigal

Fachada do Hotel Mirante do Arvrão, no Vidigal

Em busca de respostas para questionamentos cada vez mais urgentes, o Vidiga! visitou, na última sexta-feira, 13 de dezembro, as instalações do hotel, que se preparava para receber um grupo de 40 hóspedes. Entre a montagem de beliches, algumas vigas no chão e profissionais correndo de um lado para o outro, todos os curiosos eram recepcionados com sorrisos no rosto. Para a surpresa do próprio Vidiga!, que criticou publicamente Hélio Pellegrino em relação à sua visão sobre o morro, o espaço estava acessível a quem quisesse vê-lo. Nada de “não tire foto aqui”, ou “não divulgue o quarto sem estar pronto”.

De câmera e celular em punho, foi possível registrar o interior do prédio, ricamente adornado com mosaicos feitos com resto de demolição. Realmente não há luxo, no sentido usual da palavra. Há conforto – o luxo moderno – aliado à beleza e o bom gosto de arquitetos e decoradores eficientes. As suítes privativas no andar superior, seis no total, são amplas, arejadas, com varandas individuais que miram para a desconcertante vista já conhecida em editoriais de moda e turismo sobre o Vidigal. Abaixo estão elas, as casas da favela.

Montagem dos beliches no quarto coletivo do Hotel Mirante do Arvrão

Montagem dos beliches no quarto coletivo do Hotel Mirante do Arvrão

No andar do meio, quatro quartos coletivos com banheiro externo – metade com com três beliches, e a outra metade com quatro deles – estavam em montagem. As camas pareciam ser de madeira, e o pensamento lógico foi que, sendo a tradição de Pellegrino a utilização de materiais de reaproveitamento, deveriam ser de demolição. Engano: não só estes, como boa parte dos móveis do hotel são feitos de PET. Sim, o Poli Tereftalato de Etila, o plástico da garrafa de refrigerante. Misturado a outras sobras, formam juntos um bloco sólido, que é leve e resistente.

Não há piscina. O lazer fica por conta de uma ampla varanda, na parte inferior do hotel, onde está o Belmonte. Lá devem ser realizadas as festas, que já têm alguns produtores definidos e prometem ser badaladas, como todas no morro.

Valores

Banheiro da suíte privativa

Banheiro da suíte privativa

As diárias divulgadas pela gerência do hotel estão acima dos padrões adotados no morro, como era de se esperar, mas não tão além. Para ocupar uma cama no quarto coletivo para oito pessoas, o turista desembolsará R$ 60. O de seis camas tem o valor de R$ 80 por cabeça. Já para ficar em uma das suítes privativas, são R$ 300 por noite. Todas as estadias com café da manhã.

Perguntas com respostas
O atrito entre moradores e hotéis não é privilégio de bairros carentes. Em Santa Teresa, por exemplo, há um constante duelo entre as partes. Por isso, o Vidiga! selecionou os principais questionamentos feitos ao longo da construção, tanto por locais, quanto pelo próprio site, e apresentou à Graziella Fulchiron, gerente da Rede Brisa de hotéis – que englobará não só a unidade do Vidigal, como uma outra, mais ampla, em construção na Lapa.

Grazi, como já é conhecida no morro, foi peça fundamental na aproximação do projeto com os moradores. Com simplicidade, a moradora da Urca buscou entender as questões de ambos os lados, e fazer o famoso “meio de campo”. Vamos às questões:

TRANSPORTE

O trajeto de pouco mais de 2 km entre a entrada e o alto do morro pode levar 30 mintuos

O trajeto de pouco mais de 2 km entre a entrada e o alto do morro pode levar 30 minutos

Principal dúvida de quem já enfrentou a subida do morro: há dias em que o trânsito é tão complicado que o trajeto pode demorar meia hora. Nada prático e muito estressante para pouco mais de dois quilômetros.
Graziella conta que a ideia inicial era que os hóspedes tivessem uma van para fazer o trajeto, solução adiada por causa do alto investimento no veículo e motoristas. Sendo assim, de Louis Vuitton ou mala da Rocinha, os hóspedes terão que utilizar kombis, motos ou os próprios veículos, como todos os outros que sobem.
E vão querer? Segundo ela, a ideia é que vivam o morro e aproveitem até mesmo as dificuldades como experiência: “Estamos pensando em um selo, que cadastre alguns destes transportes e os hóspedes possam identificar”. A própria gerente conta que, subindo todos os dias, aprendeu a ver um lado bom. Conversa, observa, faz contatos. Se não chega a ser divertido, é interessante.

ATRATIVOS LOCAIS
Um detalhe explica o investimento no alto, mesmo sabendo da dificuldade de transporte: o objetivo é que o turista não fique subindo e descendo a toda hora. “Queremos manter os hóspedes aqui o maior tempo possível, para que vivam a realidade do morro, façam girar a economia local”, explica a gerente.
Para isso, investirão em festas e em tours locais, que terão guias parceiros para realizarem a trilha para o topo do Dois Irmãos. Entre estes, garante ela, estão moradores.

MÃO DE OBRA
Quase todos os funcionários do hotel são moradores do Vidigal. A exceção fica por conta de uma das recepcionistas (a outra é uma francesa que mora no morro), já que era preciso ser fluente em inglês, e ainda falta mão de obra especializada. O Vidiga! ajudou na divulgação das vagas, que foram publicadas no site e também disponibilizadas no mural da Associação dos Moradores.

LIXO

Rua que dá acesso ao hotel

Rua que dá acesso ao hotel

Uma pergunta fundamental: como um hotel de charme, com diárias de R$ 300, pretende lidar com o lixo em torno da Quadra do Alto, que chega a formar montanhas e abrange o final do caminho para o local?
A resposta, nem eles sabem ao certo. “A gente queria implantar a coleta seletiva, mas ela não chega aqui”, conta Graziella. “Ainda estamos pensando numa solução. É claro que é incômodo, mas estamos sempre em diálogo com a Associação dos Moradores, para tentar resolver o problema”.

ÁREA PARTICULAR, OBRA PÚBLICA / OBRA PARTICULAR EM ÁREA PÚBLICA
Uma das grandes polêmicas em torno do hotel foi a obra de contenção realizada pela Prefeitura do Rio, já que a construção estava sendo constantemente embargada. Apesar de não ter sido realizada diretamente no imóvel e sim numa encosta pública ao lado, e ser uma garantia para quem está embaixo, causou espanto o fato de o governo agir para a viabilidade de uma obra particular, e ao mesmo tempo, decretar a remoção de 43 casas na rua Carlos Duque, pelo mesmo motivo: perigo de desabamento.

Passados alguns meses, ao que tudo indica, a questão se estabilizou: a Carlos Duque receberá obras de contenção, e acima da área murada, ao lado do hotel, foi construído um deck de madeira para uso público. A entrada lateral ao hotel permitirá que turistas e moradores possam subir ao novo mirante, que está em fase de finalização.

Em suma:
No Brasil, o luxo muitas vezes está em ter uma casa com saneamento básico e parede “embolsada”. Olhando por este viés, a obra do Hotel Mirante do Arvrão realmente é luxuosa, ainda mais por ter podido investir em equipamentos que tornarão seu impacto ambiental muito menor, como um biodigestor para tratamento de seus resíduos de esgoto, sistema de captação da água da chuva e painéis solares.
O contraste assusta, mas assusta mais o que pode vir na esteira desta inauguração. A resistência à entrada do turismo no Vidigal diminuiu muito, mas o medo que persiste é da especulação imobiliária, dos perigos que o “progresso” desenfreado pode levar à – ainda – pacata vida no morro

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